KWAME ANTHONY APPIAH (Filósofo)
Veja, Edição 1946 . 8 de março de 2006
Uma ONU em casa
O filósofo americano, filho de inglesa e africano, com
parentes em uma dezena de países, considera absurdo tentar
preservar a pureza das culturas regionais
"Não há melhor maneira de garantir respeito cultural
a um povo do que lhe dar empregos bem pagos"
Quando o assunto é diversidade cultural, o filósofo
Kwame Anthony Appiah, 51 anos, fala de sua própria família.
Nos anos 50, sua mãe, aristocrata e filha de um ministro
inglês, desafiou as convenções para se casar
com um estudante africano. Appiah nasceu na Inglaterra, mas passou
parte da infância e da juventude em Kumasi, capital do povo
de seu pai, os ashantis, em Gana. Como vive e trabalha nos Estados
Unidos, adotou também a nacionalidade americana. Tem primos
indianos, libaneses, franceses e quenianos. "Nas reuniões
de família, falam-se oito línguas e há representantes
das três grandes religiões monoteístas",
diz. Ph.D. pela universidade inglesa de Cambridge e ex-professor
em Harvard, Appiah critica quem tenta isolar o Terceiro Mundo
da influência ocidental. Em Cosmopolitanismo: Ética
em um Mundo de Estranhos, publicado neste ano nos Estados Unidos,
o filósofo sustenta que a globalização faz
bem às culturas regionais. Appiah falou a VEJA de seu escritório
na Universidade Princeton, onde leciona há quatro anos.
Veja A ONU aprovou uma convenção para proteger
a diversidade cultural no mundo. Que efeitos práticos esse
documento pode ter?
Appiah A convenção baseia-se no temor de
que a cultura de massa ocidental ocupe o espaço das diferentes
formas culturais de outras partes do globo. Esse é o argumento
para que os países defendam suas expressões artísticas
e costumes nacionais ou locais. É, no mínimo, uma
contradição. A própria ONU defende a livre
circulação de idéias, a liberdade de pensamento
e de expressão e os direitos humanos. A convenção
para proteção cultural pode ser usada para desrespeitar
esses valores. O que, aliás, já vem acontecendo.
Na China, o governo utiliza a convenção da ONU como
justificativa para impedir que a população tenha
livre acesso à internet. Os burocratas chineses estão
preocupados em preservar a cultura local? Claro que não.
Apenas querem impedir os cidadãos de ter contato com idéias
e informações que os levem a desafiar o governo.
Veja Não há fundamento na preocupação
de governos, ONGs e políticos de que a globalização
ameaça a diversidade cultural?
Appiah Entendo quando governos se preocupam com o desaparecimento
de formas tradicionais de arte. Devemos apoiar manifestações
artísticas tradicionais porque elas são valiosas
não apenas para quem as faz, mas para toda a humanidade.
É preciso, por exemplo, gravar as canções
tradicionais maoris, da Nova Zelândia, ou a história
oral dos povos amazônicos, para que não se percam.
Mas é errado tentar barrar trabalhos artísticos
vindos de outras partes do mundo. A população deve
ter liberdade para escolher quais produtos culturais deseja consumir.
Na verdade, a questão é outra. Boa parte da humanidade
não tem dinheiro para seguir o estilo de vida que gostaria
ou para consumir o tipo de arte que desejaria. A razão
pela qual os moradores de uma pequena comunidade na África
preferem usar camisetas em lugar de roupas tradicionais é
simples: as roupas ocidentais custam menos. O que há de
errado com as camisetas? Elas são baratas e cobrem o corpo.
Ou seja, cumprem a função de uma roupa. É
isso que importa. Podemos deixar as vestes tradicionais para os
dias de festa.
Veja Alguns países temem a força da indústria
cultural americana, cujo exemplo mais vistoso são os filmes
de Hollywood. Esse temor se justifica?
Appiah Ninguém obriga os brasileiros ou os franceses
a assistir aos filmes de Hollywood. Não há tropas
americanas nas ruas de Paris obrigando os parisienses a entrar
nos cinemas. Eles assistem aos enlatados americanos porque querem.
Eu me preocuparia mais em estimular os americanos a ver filmes
franceses, porque são bons e merecem ser vistos, do que
em restringir a exibição de obras americanas nos
cinemas da França. O mesmo, por sinal, vale para o Brasil.
Os indivíduos e suas escolhas são mais importantes
do que a cultura que se quer preservar. Isso vale para tudo, desde
o estilo de vida que se segue até o tipo de arte que se
consome.
Veja Como assim?
Appiah Uma cultura só tem importância se
for boa para os indivíduos. Imagine uma comunidade que
tem um costume que nós consideramos inaceitável.
Obrigar as mulheres a ficar em casa e só sair na rua com
o corpo e o rosto cobertos, por exemplo. Alguém dessa comunidade
pode defender esse abuso sob o argumento de que faz parte de sua
cultura. Eu discordo. Se o costume é ruim para o bem-estar
de uma grande parcela daquela população, o fato
de fazer parte da cultura não é motivo para insistir
no erro. O foco de nossa preocupação deve ser o
indivíduo, não a tribo ou a nação.
Antes de qualquer consideração, precisamos definir
o que vem primeiro, se os direitos humanos ou os costumes estabelecidos.
Os preservacionistas culturais certamente não concordam
com a discriminação sofrida pelas mulheres, mas
são capazes de tolerar esse absurdo sob o argumento de
que se trata de um valor cultural. Isso é errado. Há
formas boas e ruins de diversidade cultural.
Veja O que são preservacionistas culturais?
Appiah Os preservacionistas culturais, geralmente gente
com bom padrão de vida em algum país ocidental,
olham para a cultura de outras regiões ou países
e dizem: "Que bonito, eles deveriam ser assim para sempre.
Devemos fazer com que eles permaneçam com seu estilo de
vida autêntico, protegido da nossa cultura ocidental e comercial".
É esse tipo de gente que acha ruim que a população
de Gana use camisetas e não aquelas típicas roupas
coloridas. Ora, cada um deve ter o direito de vestir o que quiser.
Se não pode pagar por isso, é um problema de pobreza,
não de autenticidade. Ninguém estranha que um cidadão
de um país rico viva em uma bela casa do século
XVIII com aquecimento central. Nada menos autêntico do que
isso, mas quem se importa? Por que outros povos não podem
querer modernizar-se também? Uma cultura totalmente preservada,
impedida de sofrer influências externas, está morta.
Não há sentido em querer congelar um povo no passado.
Veja A globalização deixou o mundo mais
homogêneo culturalmente?
Appiah A globalização tem como centro as
megacidades, como a Cidade do México, São Paulo,
Calcutá ou Hong Kong. Esses são lugares absolutamente
heterogêneos. São Paulo tem a maior população
japonesa fora do Japão, mas também tem habitantes
de muitos outros lugares do mundo. Nova York tem a maior população
judia fora de Israel. Os meios de transporte modernos e as trocas
culturais através da mídia eletrônica permitem
uma grande diversidade cultural nesses lugares. A homogeneização
é mais visível em pequenos povoados de países
pobres. É lá que alguns se chocam em ver Coca-Cola,
aparelhos de rádio ou outros indícios da cultura
externa. Não há nada de errado na homogeneização
global. É ela que permite que mais comunidades tenham água
tratada e encanada. Os serviços básicos de saúde
se expandiram. Não há como ser contra esse fenômeno.
Veja Que parcela de uma sociedade resiste mais à
influência de culturas externas?
Appiah Em geral é aquela que tem alguma forma de
poder a preservar. Muitas das idéias, informações
e hábitos que vêm de fora desafiam a autoridade dos
homens sobre as mulheres, de governantes ou de religiões
tradicionais. Por isso é tão comum ver chefes políticos
fazendo leis para impedir mudanças culturais. Eles temem
perder os meios de que dispõem para controlar a população.
É uma espécie de fundamentalismo político,
que resiste à globalização.
Veja Há países que exigem que as rádios
toquem músicas nacionais boa parte do tempo. Muitos líderes
políticos em algumas nações latino-americanas
defendem o uso do Estado para proteger a identidade cultural dos
indígenas. Essas idéias fazem sentido no mundo atual?
Appiah É surpreendente, mas esse tipo de gesto
nacionalista é muito comum no mundo moderno. Estou certo
de que as pessoas sabem muito bem julgar o que querem ouvir. Ninguém
precisa do Estado ditando escolhas musicais. A vida cultural do
país não vai melhorar com a obrigatoriedade de certo
tipo de exibição, porque ela pode ser cumprida enchendo
as ondas de rádio com música nacional da pior qualidade.
Por outro lado, em casos como o da Bolívia, onde um presidente
de origem indígena acaba de ser eleito, eu entendo que
a maioria da população tenha se sentido desrespeitada
em sua cultura nas últimas décadas. Ao focar em
medidas para devolver o reconhecimento que os indígenas
não tiveram no passado, no entanto, o governo boliviano
corre o risco de se desviar da questão material mais urgente,
que é a solução do problema da pobreza. Não
há melhor maneira de garantir respeito cultural a um povo
do que lhe dar empregos bem pagos.
Veja A política indigenista brasileira preocupa-se
em preservar o modo de vida dos índios em sua forma original.
É possível ter sociedades monoculturais em um mundo
globalizado?
Appiah Difícil é encontrar uma sociedade
que seja monocultural. As culturas são feitas tanto de
continuidade quanto de mudanças. E as transformações
não significam o fim de sua sobrevivência. As culturas
estão o tempo todo emprestando elementos umas das outras
e isso é bom. Nada parece mais monocultural do que um monastério
tibetano e, no entanto, o budismo veio de fora, da Índia.
Quem visita as aldeias ao redor da cidade em que vivi em Gana
pensa que está diante de comunidades monoculturais. Como,
se quase todos os moradores são cristãos? O cristianismo
chegou à região no século XIX, trazido pelos
europeus. É, portanto, um aspecto recente da cultura local.
Os exemplos são infindáveis. Culturas que não
se transformam morrem.
Veja O Brasil criou cotas para a população
negra nas universidades. Muitos críticos consideram essa
medida uma forma de criar uma identidade racial de cima para baixo.
O senhor concorda?
Appiah Não se pode forçar a diversidade
criando, entre os indivíduos, diferenças das quais
eles sempre quiseram escapar. É uma péssima idéia
adotar no Brasil medidas contra o racismo criadas para o contexto
dos Estados Unidos, como o sistema de cotas. A realidade racial
brasileira é muito diferente. Há duas diferenças
básicas. A primeira é que no Brasil a classificação
racial é feita com base na aparência do indivíduo.
Nos Estados Unidos, é a ancestralidade que conta. Aqui,
alguém com a aparência do presidente Bill Clinton
pode ser considerado negro. Já no Brasil, alguém
que se pareça com Clinton será ridicularizado caso
se identifique como negro. A segunda diferença é
que, desde a abolição da escravatura, no Brasil
nunca mais houve segregação racial oficial. Nos
Estados Unidos, em muitos estados, os negros eram proibidos por
lei de entrar em determinados lugares e de exercer determinadas
funções até os anos 60. Por isso, não
é uma boa idéia repetir a experiência recente
americana sem levar em conta as peculiaridades brasileiras. O
problema das cotas é que a universidade não terá
utilidade alguma para o aluno se ele não estiver preparado.
Veja O fundamentalismo islâmico pode ser considerado
um tipo de preservacionismo cultural?
Appiah O curioso a respeito dos verdadeiros fundamentalistas
muçulmanos é que eles não são nada
preservacionistas. Eles são, sim, hostis às culturas
tradicionais de seus lugares de origem. Os fanáticos que
participam de atentados terroristas acreditam ter encontrado a
versão verdadeira de sua religião. Para eles, os
seus pais, para quem o Islã está ligado a um estilo
de vida tradicional, não são bons muçulmanos.
Muitas práticas tradicionais em países muçulmanos
não são aceitas pelos fundamentalistas porque não
são, na sua visão, fiéis ao Corão.
Os fundamentalistas são reformadores radicais do Islã.
Eles tentam criar uma forma moderna e simplificada da religião,
não uma repetição de algo que existiu no
passado. Querem o Islã tirado de seu contexto cultural.
São perigosos não porque querem preservar uma cultura,
mas porque querem destruir a existente.
Veja Que tipo de mundo os fundamentalistas muçulmanos
querem criar?
Appiah Eles querem que todos sejam como eles. É
isso que os distingue de quem tem uma visão cosmopolita
do mundo. Os fundamentalistas acreditam que, para dar sentido
e dignidade à vida das pessoas, todas devem ser iguais
a eles. Já os cosmopolitas acham que isso só será
atingido se cada um puder fazer as escolhas que quiser. O objetivo
de fundamentalistas e cosmopolitas é o mesmo, mas os meios
mudam. Para os cosmopolitas, a verdade está distribuída
ao redor do planeta. Nem todo mundo tem a mesma idéia de
qual é a melhor maneira de ser feliz. É uma visão
pluralista do mundo e é a que eu defendo.