SUELY VILELA (reitora da Universidade de São Paulo (USP)
É possível fazer inclusão social com
mérito
O Globo (04/06/2006)
Desde que assumiu a reitoria da USP, em novembro passado, a professora
Suely Vilela criticou as propostas de cotas raciais e sociais,
hoje implantadas em algumas universidades e defendidas pelo movimento
negro e pelo governo federal. Agora, a reitora apresenta um sistema
alternativo de inclusão social, com um bônus nas
notas dos vestibulandos que tenham cursado os três anos
do ensino médio na escola pública.
Para ela, o programa Inclusp combina mérito acadêmico
e inclusão.
Será um conjunto de ações: na escola,
com os alunos e com aos professores. E vamos pedir ao CNPq bolsa
de iniciação científica júnior para
os alunos.
Como é o projeto de inclusão da USP?
SUELY VILELA: É o sistema de pontuação acrescida,
ou seja, vamos adicionar o fator de 3% na nota dos alunos da rede
pública tanto na primeira quanto na segunda fase do vestibular
a partir deste ano. Também vamos implantar o sistema de
avaliação seriada, mas ele não começa
no vestibular 2007.
O que é avaliação seriada?
SUELY: O objetivo do nosso projeto de inclusão (Inclusp)
é aumentar o número dos alunos de escolas públicas
na universidade. Isso passa pela melhoria do ensino público
e vamos focar no ensino médio. A avaliação
seriada será aplicada nas escolas que aderirem e será
feita em todos os anos. Vamos acompanhar aquele aluno desde o
primeiro ano e ele será avaliado ano a ano pela Fuvest.
Quando será implantado e como vai funcionar?
SUELY: Ainda estamos detalhando o sistema, mas será um
conjunto de ações: na escola, com os alunos e com
aos professores. Nas escolas, podemos contribuir com o aperfeiçoamento
do conteúdo, das disciplinas. Oferecer aos professores
cursos de educação continuada. E, com os alunos,
vamos pegar os que têm melhor desempenho, solicitar ao CNPq
a bolsa de iniciação científica júnior
e eles virão aos laboratórios da universidade.
Mas como é a bolsa para segundo grau?
SUELY: É uma modalidade do CNPq que já existe,
mas que não teve muita procura em alguns anos e, agora,
nós vamos concorrer, solicitar ao CNPq e dar a esses alunos,
porque entendemos que a iniciação científica
é o melhor instrumento para desenvolvimento do aluno, para
desenvolver seu raciocínio e criatividade, despertar para
a pesquisa.
Qual a porcentagem de alunos oriundos da rede pública
hoje na USP?
SUELY: Os alunos ingressantes que tenham cursado os três
anos na escola pública são 19,5%. Os alunos que
cursaram pelo menos um ano do ensino médio na rede pública
são em torno de 24,5%.
Esse bônus de 3% não é perigoso? Não
torna menor a qualidade do aluno que entra na universidade?
SUELY: Não. Escolhemos 3% depois de fazer várias
simulações com as notas dos resultados da Fuvest
de 2006. Aplicamos esse fator de acréscimo em todas as
áreas. E a diferença no número de pontos
do aluno é muito pequena. Se você pega as áreas
que são muito concorridas, como direito, medicina e jornalismo,
por um ponto você deixa de entrar na universidade. E um
ponto, dois pontos, não nos permitem dizer que o aluno
teve o melhor desempenho, principalmente olhando o nosso sistema
de vestibular e o que ele mede: o volume de informações
acumuladas ao longo do tempo.
Quer dizer que os 3% vão ajudar o aluno a escapar da nota
de corte?
SUELY: É isso mesmo.
E essa medida vai aumentar em quanto o número de alunos
que vêm da escola pública?
SUELY: Considerando o dado de 24,5%, calculamos chegar a 30%.
Por que não fazer um sistema de cotas?
SUELY: A USP entende que você tem de preservar o mérito
acadêmico. Selecionar os melhores alunos. Fomos buscar um
projeto que articule o mérito acadêmico, a autonomia
universitária e a inclusão social. É possível
fazer a inclusão social com mérito.
E por que não tratar exatamente de alunos de ascendência
negra?
SUELY: Nós escolhemos o ensino médio público
porque, quando você olha o censo escolar de 2005, que tem
raça e cor, o cenário mostra que 56% dos alunos
são da raça negra. E é no ensino público
que você tem aqueles com o menor poder aquisitivo. Ao escolhermos
esse cenário, acreditamos que faremos uma inclusão
tanto étnica quanto socioeconômica. Dessa forma,
não adotamos nem o corte socioeconômico nem o racial.
Temos especialistas da área de inclusão social que
vão acompanhar esse processo para saber se atingimos o
objetivo, que é a inclusão étnica e social.
Assim, saberemos se temos de fazer algumas alterações
ou não.
A senhora não teme que a medida possa reforçar
a criticada tese de que no Brasil existe uma democracia racial,
de que não existiria o preconceito de cor, mas o preconceito
contra quem é pobre?
SUELY: Eu acho que o projeto não tem nada disso. A universidade
ganha quanto maior for a sua cultura, a sua multiculturalidade.
A universidade ganha quando faz a inclusão socioeconômica
e étnica, em suas diferentes realidades.
E o bônus de 3% vai atender aos dois quesitos?
SUELY: Só os 3%, não. Eu acho que esse acréscimo
vai incluir mais alunos da rede pública, onde estão
o negro e o de baixo poder aquisitivo. Mas com a avaliação
seriada é que essa inclusão será mais significativa.
Com a aprovação do sistema de cotas pelo governo
federal, a USP vai fazê-lo também?
SUELY: A regra vale para as universidades federais. As paulistas
(USP, Unesp e Unicamp) têm autonomia para desenvolver seus
próprios projetos de inclusão. As cotas estão
em discussão e obviamente isso traz uma cobrança
maior dentro das universidades, que têm de colaborar nesse
processo.
Houve alguma negociação com o movimento negro para
desenvolver o projeto de inclusão?
SUELY: Recebemos representantes de grupos do movimento negro,
principalmente a Educafro. No dia de votar o projeto no Conselho
Universitário houve uma invasão da reitoria. Na
reunião, a pró-reitora de graduação
se retirou do conselho para dialogar com as várias entidades
que estavam lá. A reivindicação deles é
o fator de acréscimo de 10% e não de 3% e o corte
tanto socioeconômico quanto racial. Então, seriam
10% de acréscimo e mais 3% para negros e para os que têm
uma condição econômica mais frágil.
Nós nos comprometemos a manter esse diálogo. Vamos
continuar ouvindo as propostas, uma delas é de que representantes
do movimento façam parte do grupo de trabalho do projeto.
É possível que, mais adiante, a USP faça
alguma política voltada para a inclusão dos negros?
SUELY: No momento é difícil prever isso. É
preciso fazer uma simulação dessa reivindicação
deles e uma avaliação do impacto disso na universidade.
Esse é um tema que tem de ser avaliado não só
pelo grupo de trabalho do Inclusp, mas pelos colegiados competentes
da universidade.